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sábado, 23 de agosto de 2008

Um Beijo Roubado


Mais uma obra do diretor chinês Wong Kar-Wai (Dias Selvagens, Amor à Flor da Pele, 2046), agora com um elenco Hollywoodiano e a surpreendente participação da cantora estreante no cinema Norah Jones como a protagonista Lizzy (Elizabeth) que ao ver sua vida amorosa desmoronar após seu namorado tê-la trocado por outra, resolve estar cada vez mais longe de onde tudo começou como uma forma de achar as respostas e uma solução para tudo que lhe ocorreu.

Em sua “fuga” pelas estradas americanas ela acaba conhecendo outras pessoas que também vivem dilemas em suas vidas com relação ao amor e aprende que o respeito, a dor e a confiança são alguns dos sentimentos que sempre estarão relacionados ao amor.

Tudo isso envolvido com uma excelente trilha sonora de Shigeru Umebayashi (responsável por trilhas como Amor à Flor da Pele e 2046 também em parceria do diretor Wong Kar-Wai e O Clã das Adagas Voadoras e O Mestre das Armas entre outras), uma mistura deliciosa e viciante como sorvete com torta de Blueberry.

No inicio vemos Elizabeth ir ao bar de Jeremy (Jude Law, Closet – Perto Demais) procurar por seu namorado que mora ali perto, ao questionar o dono do bar se o havia visto ela é informada que ele esteve lá na noite anterior com sua “namorada”, Lizzy enfurecida deixa as chaves do apartamento do namorado com Jeremy para que as entregue quando “alguém” for procurar por ela.

Ao retornar ao bar para saber se sua chave tinha sido procurada inicia-se uma amizade com Jeremy que lhe apresenta a torta de Blueberry que tem um gosto peculiar que quase nunca é experimentada por seus clientes, mas Lizzy é fisgada por ela. Suas visitas ao bar se tornam freqüentes e numa delas percebe que existem vários outros conjuntos de chaves juntos a sua e que cada uma delas tem uma história de amor própria.

Elizabeth se assusta quando percebe que Jeremy sempre a espera no mesmo horário e reserva o mesmo lugar e o mesmo prato todas as noites. Isso a amedronta e a faz fugir, retornando logo após depois de sofrer um assalto, nesta mesma noite ela adormece no balcão do bar e Jeremy a surpreende ao limpar sua boca suja de torta de Blueberry.

Lizzy resolve dar inicio a sua busca, primeiro vai a Memphis, Tennessee onde mantém dois empregos como garçonete alegando precisar de dinheiro para poder comprar um carro. Um de seus clientes o policial Arnie (David Strathairn, Boa Noite e Boa Sorte) que usa como fuga o álcool por sofrer a perda do amor de sua mulher Sue Lynne (Rachel Weisz, O Jardineiro Fiel), uma mulher fascinante e que também está em conflitos com seus sentimentos.

Neste momento do filme a personagem de Norah Jones é apenas uma observadora da vida de seus clientes, por isso o diretor sempre a apresenta de uma maneira simples, com poucas palavras e mais atenta aos fatos aos seu redor, com seus cabelos presos, aparentemente sem maquiagem e roupas de serviço, deixando a cena ser roubada por Sue Lynne, uma mulher deslumbrante, visualmente perfeita mas com muitos conflitos internos que também resolve seguir os caminhos de Lizzy indo em busca de suas respostas.

Enquanto isso Lizzy mantém contato com Jeremy através de postais que ele recebe sem saber o real endereço de onde ela está, fato este que o deixa paranóico, tentando através de listas telefônicas conseguir encontrá-la.

Já em Arizona, trabalhando em uma casa de apostas Lizzy conhece Leslie (Natalie Portman, V de Vingança) uma linda jogadora de pôquer, jogo este que ela usa como modo de fugir, pois traz consigo um conflito não resolvido com seu pai, o responsável por lhe ensinar tudo sobre o jogo, isto a faz se tornar uma pessoa incrédula com relação as outras pessoas, sempre se deixando confiar no seu instinto de conseguir ler as pessoas como a um jogo de cartas, Leslie também é uma personagem extremamente sexy vivendo em conflitos com seus sentimentos, enquanto Elizabeth, sendo apresentada com sua beleza conservadora, é uma pessoa totalmente diferente de Leslie com relação ao que esperam encontrar nas pessoas. Ambas se unem e vão em busca de suas respostas.

Depois de quase um ano ela retorna por onde deu inicio a sua busca, mudada, amadurecida, ela vai ao bar rever Jeremy, senta em seu lugar reservado e come sua torta de Blueberry, Lizzy se vê pronta, não com todas as respostas mas consciente que pode iniciar um novo começo, pois ela cruzou todo o pais e percebeu que bastou cruzar a rua para encontrar o que realmente precisava.

Coincidentemente, mas não por acaso, ela apresenta-se com sua sensualidade aflorada, seu visual demonstra sua autoconfiança e agora ela é a mulher observada. O diretor conseguiu nas cenas finais fazer com que os atores flertassem de uma maneira verdadeira, deliciosa e impossível ao terminar de ver o filme não sentir uma vontade (necessidade) enorme de Beijar na boca, mas Beijar com B maiúsculo de verdade, quente e gostoso, um Beijo verdadeiro... mesmo que seja um Beijo Roubado, pois como eu disse tem que ser tão viciante como uma bela torta de Blueberry com sorvete.


Paradise Now


O terceiro filme do diretor Hany Abu-Assad, o primeiro sendo o “Het 14e Kippetje” (1998) e o segundo “O Casamento de Rana” (2002) se tornando internacionalmente conhecido após ele, nos ajuda a desmistificar entre outras coisas essa visão errônea que alguns de nós ocidentais temos do povo que vive no Oriente Médio, pois na nossa imagem acreditamos que são pessoas frias, cruéis e egoístas, verdadeiros monstros terroristas e autoritários que estão “preparados” para qualquer atrocidade a qualquer momento.

Os personagens Said (Kais Nashif) e Khaled (Ali Suliman), ambos palestinos residindo na Cisjordânia, escolhidos para serem homens-bomba num ataque suicida, mostram durante o filme suas convicções e duvidas sobre a legitimidade da ação e sobre o fato de que vitimas inocente morrerão no atentado a Tel Aviv.

Said e Khaled são dois amigos e como é mostrado no inicio possuem umas vidas normais trabalham numa oficina mecânica onde são cobrados por um chefe exigente e tendo que lidar com os clientes impertinentes, nos intervalos conversam sobre assuntos normais para qualquer jovem, bebem chá e se drogam e Said ainda tem um flerte com uma cliente da oficina, Susha (Lubna Azabal) uma pacifista que viveu um tempo fora após a morte do pai, este um mártir, tudo aparentemente normal na vida normal dos amigos, até a visita de um amigo deles do grupo palestino extremista, informando que a vez deles chegou e eles terão mais uma noite para passarem cada um com sua família e se despedirem delas sem demonstrarem o que realmente fará no dia seguinte, nesta parte percebemos o carinho e conflitos que eles possuem em casa, famílias humildes que sofrem as conseqüências dos conflitos da região.

No dia seguinte são levados para serem “preparados” para o ato a que foram convocados, cortam os cabelos e barbas e ganham roupas para não chamarem a atenção como palestinos, no momento de gravarem os depoimentos , pois se tornarão mártires e terão suas fitas e fotos encontradas facilmente no mercado para que o povo os idolatrem, levam este momento com certa despretensão, fazendo piadas e poses com as armas em frente a filmadora, na verdade não conseguindo expressar-se com palavras que demonstrem sobre o porque de seus atos.

Ao chegarem à fronteira um imprevisto ocorre, separando os dois amigos, ambos neste momento com bombas escondidas pelos seus corpos, tentam encontrar-se antes que a situação fique fora de controle, agora ela avaliará suas convicções e rápido, enquanto estão circulando pela cidade ainda com as bombas pelo corpo se vêem perdidos, indefesos e não mais com a certeza que demonstravam ter no inicio, Khaled encontra Susha, a pacifista que tem um affair com Said, ambos tentam desesperadamente encontrá-lo, e quando os três estão reunidos Susha tenta convencê-los, pois a atitude tomada por eles não é a melhor maneira de mostrar ao mundo o que esta acontecendo e nem de resolver os problemas, ela conseguira convencê-los? , será tarde demais para eles desistirem? , será que eles querem desistir? .

Os dois protagonistas possuem vários conflitos internos, pois alem de terem como motivação a vingança pela ocupação israelense na Cisjordânia, há a recompensa divina, eles receberão após o ato suicida que irão realizar algo muito respeitado pelos palestinos, eles também tem motivos particulares, como o fato de um deles, Khaled, ter o pai trabalhado como espião de Israel, mas existe o outro lado, a duvida, e o filme mostra a duvida que qualquer ser humano tenha quando chega o momento de decidir se devem levar adiante seus ideais independentes das conseqüências que ela ira trazer a ele, as pessoas próximas a ele e ao resto do mundo, pois serão responsáveis pelo ato final, se tornarão mártires, serão conhecidos e acreditam que também ajudarão seu povo há viver um dia num mundo melhor.

Podemos não concordar com seus atos, mas temos pelo menos que tentar entender seus motivos, o porquê fazem e como eles querem que eles reflitam aos olhos do mundo, pois “eles não tem nada a perder se sua existência nada lhe traz de promissor”.

O diretor, um palestino radicado na Holanda com participação no roteiro ao lado de Bero Beyer e Pierre Hodgson, rodou todo o filme nos territórios em conflitos e teve as filmagens interrompidas todos os dias por estar sempre no meio de tiros e bombas, tendo ate que lidar com o fato de alguns membros da equipe de filmagem, alemães, não voltar mais depois de uma das interrupções após uma bomba explodir próximo a eles, outro ponto positivo do diretor é que ele mostrou o contraste entre as cidades envolvidas no filme, o luxo de Tel Aviv e a miséria da cidade palestina.

Este filme ganhador do Globo de Ouro 2006 por filme estrangeiro, não foi recebido como bons olhos em Israel tendo sido boicotado pelas principais redes de cinema no Estado Judeu, ficando limitado a passar nas salas de cinemas independentes, mesmo parte do marketing do filme ter sido pago por um fundo de artes do governo israelense e talvez não convença o conservador escalão hollywoodiano a lhe darem o Oscar, mas há indicação este ano já abrira portas importantes tanto ao competente diretor como ao assunto abordado no filme.

Um filme difícil, ainda mais porque o diretor só mostrou um lado do conflito, mas teve a maestria de se preocupar em mostrar o lado humano, assista a este belo filme e talvez você olhe de maneira diferente para este pedaço tão pequeno mais tão importante do mapa mundial e não caia na lavagem cerebral feita pelos americanos após o atentado de 11 de setembro, como por exemplo, a série de TV “24 Horas” que embora seja bem feito só ajuda a aumentar o pânico dos americanos após o ocorrido em seu país.

Saneamento Básico - O Filme


Sensacional filme de Jorge Furtado (Meu Tio Matou Um Cara, O Homem Que Copiava e Houve Uma Vez Dois Verões), que consegue retratar em “um simples” filme toda a complexidade em se fazer cinema no Brasil, um filme que não fala apenas de cinema e sim dos sonhos, da corrupção do sistema governamental, da pureza das pessoas que lutam por seus direitos, assim é Saneamento Básico.

Na comunidade da Linha Cristal, uma pequena vila de descendentes de colonos italianos na serra gaúcha, reúne-se para tomar providências sobre a construção de uma fossa (ou fosso) para o tratamento do esgoto. Uma comissão é escolhida para pleitear a obra junto à sub prefeitura. Após ouvir a reivindicação, a secretária da prefeitura reconhece a legitimidade da solicitação, mas afirma que não dispõe de verbas para obras de saneamento básico até o final do ano. No entanto, a prefeitura tem quase dez mil em verbas para a produção de um vídeo. A verba veio do governo federal e, se não for gasta, terá que ser devolvida. A comunidade decide então fazer um vídeo sobre a obra. A prefeitura apóia a idéia da realização do vídeo e da utilização da verba para a obra, que seria um absurdo devolver, mas esclarece que, para requerer a verba, a comunidade deve apresentar um roteiro e um projeto do vídeo, e que a verba era necessariamente para obras de ficção. Os moradores da Linha Cristal passam então a fazer um vídeo de ficção que, segundo interpretações, é um filme de monstro, ambientado nas obras de construção de uma fossa, com o único objetivo de usar a verba para as obras. O que eles não esperavam é que a produção do vídeo fosse se tornando cada vez mais complexa e interessante.

Com um elenco de grandes atores nacionais como Lázaro Ramos, Fernanda Montenegro, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Paulo José e Tonico Pereira, o diretor Jorge Furtado consegue de uma maneira divertida mostrar como é difícil fazer com que seus direitos como cidadãos sejam cumpridos, o desleixo das autoridades as condições básicas de moradia a população são mostrados na incapacidade (boa vontade) de uma prefeitura em criar uma fossa e como esses mesmos despreocupados governantes se aproveitam para ganhar prestigio posando como criadores do feito após o trabalho duro dos moradores da vila.

A simplicidade dos moradores em criar um filme de “ficção” para conseguir o dinheiro necessário para a criação da fossa é fascinante, são como ingênuos jovens idealistas querendo fazer arte e mesmo com poucos recursos tanto financeiros como de bagagem cultural conseguem financiadores para o filme (qualquer semelhança com o cinema nacional é mera coincidência) o apelo comercial posto na parte da edição também mostra que o cinema não sobrevive só de ideais e dividir os louros com os mesmos despreocupados do inicio talvez ajude futuramente, pois fica evidente o jogo de interesse após a conclusão do filme.

Cuidado ao assistir, pois as sutilezas das alfinetadas não poupam ninguém, se você se sentir atingido, primeiro ria, depois reflita...