Mostrando postagens com marcador História do Rock no Cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História do Rock no Cinema. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

História do Rock no Cinema – parte 16: Punks

O primeiro filme de ficção que pode ser chamado de punk, não só no visual mas também nos ideais, foi o britânico Jubilee, dirigido por Derek Jarman em 1977. Inicia com a rainha Elisabeth I numa viagem no tempo do século 16 até ao final dos anos 1970, quando encontra a Inglaterra imersa na anarquia, com violência reinando nas ruas e o Palácio de Buckingham como um estúdio para gravação de bandas punk. A estrutura do filme é episódica e mostra um grupo de niilistas em diversas situações. Há participações de Adam Ant dois anos antes de se tornar um cantor de sucesso e da banda Siouxsie & The Banshees em início de carreira. A trilha sonora ficou a cargo de Brian Eno.

Bandas nas telas

Roger Corman, o lendário diretor e produtor de filmes B, não poderia deixar de faturar alguns trocados com o gosto musical dos jovens. Resolveu atacar como produtor e, em 1979, concebeu um filme que se passava numa escola e tinha a música como tema central. O título deveria ser Disco High. Sim, seria sobre disco music. Por sorte, alguém o convenceu a utilizar o rock e o filme virou Rock ‘n’ Roll High School (alguns outros títulos foram considerados antes de se chegar a esse). Vários nomes foram cogitados para estrelar a parte musical do filme, entre eles Todd Rundgren, Cheap Trick, Tom Petty, Devo e Van Halen. Num dado momento, os Ramones foram sugeridos e acabaram escolhidos. Para dirigir o filme, foi contratado Allan Arkush, que ficou doente no final das filmagens e foi substituído por Joe Dante. Conta a história de uma garota grande fã dos Ramones e quer mostrar a letra que compôs para o grupo. Na sua escola, a nova diretora reprime o interesse dos alunos pelo rock. A banda aparece tocando várias músicas e ainda há vários outros astros na trilha sonora, como Chuck Berry, Devo, MC5, Brian Eno e Alice Cooper. É um filme muito divertido, que se tornou cult e influenciou inúmeros filmes escolares da década de 80. Essencial para qualquer um que goste de Ramones, mas infelizmente ainda não foi lançado em DVD no Brasil. Há uma continuação, de 1990, chamada Rock ‘n’ Roll High School Forever, mas nem chega perto do espírito do original.

Outra banda que estrelou um filme foi o The Clash em Rude Boy, de 1980, dirigido por Jack Hazan e David Mingay. É um semidocumentário sobre um rapaz que se torna roadie da banda. A história dele é ficção, os shows do The Clash são reais e as manifestações públicas também. O resultado final não agradou a banda, a parte ficcional é bem amadora, sendo que a produção nem circulou muito fora da Inglaterra. Só recentemente chegou em solo americano no formato DVD e tem uma opção no menu para ver somente as apresentações da banda, o que realmente interessa no filme.

Richard Hell é considerado um dos primeiros punks, foi baixista do Television e depois montou sua própria banda, o Richard Hell and The Voidoids, que lançou a canção "Blank Generation", um dos hinos de sua época. Esse é o mesmo título de um filme de 1980 dirigido pelo alemão Ulli Lommel. (Não confunda com The Blank Generation, média metragem de 1976.) A produção estrelada por Richard Hell, que também assina o roteiro, conta a história de uma jornalista francesa que se envolve com um astro punk. O diretor inspirou-se no filmes de Godard, com cortes abruptos e digressões sobre algum assunto, talvez por isso não tenha sido bem aceito na época. Desperta a curiosidade pelas cenas no CBGB, por mostrar a imagem que os punks tinham de si próprios e para ver o baterista dos Voidoids, Mark Bell, que depois se tornaria Marky Ramone.

Também existiam garotas que formavam bandas punks, é o que mostra o filme canadense Ladies and Gentlemen, The Fabulous Stains, dirigido por Lou Adler em 1981. Estrelado pelas jovens Diane Lane e Laura Dern, tem a participação de Steve Jones, Paul Cook, ambos do Sex Pistols, e Paul Simonon, do The Clash. O filme teve um lançamento pequeno nos cinemas e só encontrou seu público mesmo alguns anos depois, na televisão a cabo. Permanece inédito em DVD.

Filmes de Alex Cox

Alex Cox é um diretor britânico que expressou sua simpatia pelo punk em alguns de seus filmes. O primeiro foi Repo Man – A Onda Punk, de 1984, estrelado por Emilio Estevez, conta a história de um jovem punk que consegue um emprego como “repossesion man”, a pessoa encarregada de recuperar carros cujos compradores não pagaram suas prestações. A aventura segue quando recupera um carro com uma estranha maleta no porta-malas e é perseguido por alienígenas. Integrantes da banda Circle Jerks aparecem em pequenos papéis e participam da trilha sonora, que também inclui Suicidal Tendencies, Black Flag e Iggy Pop cantando a faixa-título.

No seu filme seguinte, Cox mergulhou de vez no punk ao contar a história do trágico romance entre Sid Vicious e Nancy Spungen. Ao invés de retratar de forma realista o baixista do Sex Pistols, preferiu foi colocar na tela a imagem pública e as lendas a respeito dele em Sid & Nancy – O Amor Mata, lançado em 1986. Tudo que se pensa a respeito do casal está no filme, que não se preocupa com a fidelidade a fatos históricos. Gary Oldman “incorpora” Sid Vicious de forma muito convincente e até canta algumas canções na trilha sonora. Estão presentes na trilha Joe Strummer, The Pogues e Circle Jerks, mas não há nenhuma canção do Sex Pistols ou de Sid Vicious. Para o papel de Nancy, várias atrizes foram testadas, entre elas estava a jovem Courtney Love que impressionou bastante o diretor, mas os investidores queriam uma atriz com mais experiência e a escolhida foi Chloe Webb, que se saiu bem no papel. Como consolação, Courtney ganhou o papel de uma das amigas junkies de Nancy. O filme foi execrado por John Lydon (ou Johnny Rotten, vocalista dos Pistols), que disse que era somente uma fantasia sobre a vida de Sid Vicious e que apresentava inúmeros erros. Quando perguntado se havia algo real no filme, Lydon respondeu: “Talvez o nome Sid”.

O trabalho seguinte de Alex Cox foi um faroeste chamado Straight to Hell, de 1987. Neste conseguiu escalar Courtney Love para papel principal e completando o elenco estão vários músicos: Joe Strummer, Elvis Costello e os integrantes das bandas Circle Jerks, The Pogues e Amazulu. Assim como a maioria dos filmes de Cox, a fita não foi bem recebida na época, mas teve seus fãs e não acabou esquecido. Alguns anos depois, Courtney Love formaria uma banda, conheceria Kurt Cobain e continuaria sua carreira no cinema, mas isso é uma história para ser contada mais para a frente.

Filmes sobre punks

Outra produção de Roger Corman, Suburbia, dirigida por Penelope Spheeris em 1984 (não confundir com subUrbia, de Richard Linklater), retrata um grupo de jovens punks que se rebelam contra suas famílias. A produção traz alguns músicos no elenco, como o jovem Flea, do Red Hot Chili Pepers, e a tem participação de bandas como T.S.O.L. e The Vandals.

A produtora Troma, responsável por diversos filmes B cheios de sangue e humor negro, lançou em 1996 uma versão punk de um clássico de Shakespeare com o título Tromeo and Juliet. Com uma história atualizada e carregada de violência e sexualidade, além de uma boa dose de irreverência, o filme é uma espécie de “clássico romântico” da produtora. O responsável pela narração da história é o Lemmy, do Motorhead.

Um bom registro sobre os punks foi feito em SLC Punk!, dirigido por James Merendino em 1998. Livremente baseado nas memórias do diretor, retrata a vida de jovens punks no meio da década de 80 em Salt Lake City, que não era um grande centro como outras cidades. O protagonista dirige-se várias vezes para a câmera apresentando personagens, situações e explicando seu ponto de vista com relação a vários conceitos. Seu grande amigo chama-se Heroin Bob, que não usa drogas e tem medo de agulhas. O cotidiano dos jovens é o foco dessa comédia dramática, como as festas, shows, amigos e brigas com outras tribos urbanas. A trilha sonora foi muito bem empregada e traz clássicos de The Stooges, Ramones, Velvet Underground, Dead Kennedys, The Specials e Blondie. É um filme divertido que merecia ser lançado no Brasil.

fonte: omelete

História do Rock no Cinema – parte 15: David Bowie


Depois de Elvis Presley, David Bowie é o astro do rock com a carreira mais sólida no cinema. Diferente do Rei, que fazia variações da mesma história, Bowie optou por filmes muito diferentes entre si. Outra diferença está nos personagens. Elvis sempre interpretava o mesmo papel, enquanto Bowie escolheu personagens que exigiam bastante de sua capacidade de ator. Um outro ponto é que Bowie teve uma carreira de ator dissociada de sua carreira de músico, já que aparece cantando em apenas alguns dos seus filmes. Por isso, vamos separar aqui essas duas facetas do Camaleão do Rock.

Bowie músico

Ziggy Stardust é o personagem mais conhecido de Bowie, gravou dois discos com essa persona. O último show da turnê de Aladdin Sane aconteceu no dia 3 de julho de 1973 e foi documentado por D. A. Pennebaker. Antes da última música, Bowie anuncia que aquele não era somente o último show da turnê, mas também o último show que faria. Lógico que quem falava era Ziggy. A declaração pegou de surpresa até os músicos da banda, que não sabiam dessa decisão. Ziggy Stardust and The Spiders From Mars já vale por esse registro histórico, mesmo que a qualidade da imagem não seja das melhores. Não só isso, mas é uma ótima apresentação de Bowie num grande momento de sua carreira.

Bowie faz uma pequena participação no filme Christiane F., famosa história de uma garota alemã de 13 anos que se vicia em drogas e se prostitui. A jovem é fã do cantor e experimenta heroína pela primeira vez após um show dele. Bowie cedeu várias músicas para a trilha sonora. Lançado em 1981, o filme foi um grande sucesso e chocou várias pessoas pelo seu enredo. Visto hoje, não tem o mesmo impacto.

Outro filme que Bowie aparece como ele mesmo é Zoolander, de 2001. Num desfile-competição, ninguém mais adequado para ser juiz do que o estiloso cantor. Uma brincadeira com a sua própria imagem pública.

A música de Bowie foi utilizada em mais de uma centena de filmes e vale destacar a trilogia sobre a América criada por Lars Von Trier, por enquanto com dois filmes: Dogville e Manderlay. A canção "Young Americans" encerra as duas produções acompanhada de fotos da pobreza e dos excluídos da América. Um efeito bonito, causa impacto e ganha a simpatia do espectador, mas é redundante com o restante do filme. Funciona melhor como videoclipe da música. Tudo leva a crer que a terceira parte, Wasington, não deve ser diferente.

When the Wind Blows é uma animação britânica de 1986, baseada numa história em quadrinhos, que conta a história de um casal de idosos após uma guerra nuclear. Bowie compôs a canção tema e a trilha sonora ainda tem Roger Waters e Genesis.

Bowie ator

Após pequenas pontas em alguns filmes britânicos, que até passam despercebidos, Bowie protagonizou O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth), de 1976, dirigido por Nicolas Roeg. É a história de um alienígena que chega à Terra com o intuito de levar água para seu planeta natal. Vende sua tecnologia para os terráqueos, monta uma grande companhia, fica rico e sucumbe aos prazeres humanos. Bowie provou que também era um bom ator e foi realmente o início de sua carreira cinematográfica. O filme tem uma montagem que torna a história um pouco confusa, os personagens envelhecem (exceto o alienígena), no entanto os objetos e cenários parecem ser todos da mesma época. Bowie compôs algumas músicas para o filme, mas elas não foram utilizadas. Fragmentos dessas músicas aparecem nos discos Station to Station e Low, que têm capas com imagens do filme. A roupa do personagem principal foi criada pela mãe do Slash, o guitarrista do Guns N’ Roses.

Ainda na sua fase Berlim, Bowie estrelou o filme alemão Apenas um Gigolô (Schöner Gigolo, armer Gigolo), lançado em 1978 na Alemanha e ano seguinte no restante do mundo com o título Just a Gigolo. Dirigido por David Hemmings, conta a história de um soldado após a Primeira Guerra Mundial que retorna a Berlim e não encontra emprego. Vai, então, trabalhar num bordel como gigolô. A dona do lugar é interpretada por Marlene Dietrich, no último papel de sua carreira. O filme foi um grande fracasso de crítica e público. Algum tempo depois, Bowie reconheceu que era mesmo uma bomba. Bowie compôs uma canção do filme, mas não a gravou. Marlene Dietrich canta Just a Gigolo, música popular da década de 20 que, posteriormente, foi um dos maiores sucessos da carreira solo de David Lee Roth, depois que saiu do Van Hallen.

Bowie voltou a protagonizar uma produção em 1983 e dessa vez foi um grande sucesso. Fome de Viver (The Hunger), dirigido por Tony Scott, foge das convenções conhecidas de histórias de vampiros, modernizando essas figuras míticas. Essa proposta fica bem clara na primeira cena, na qual aparece o grupo Bauhaus tocando "Bela Lugosi’s Dead". Temos vampiros que andam na luz do sol, uma explicação científica para alguém se tornar um vampiro, não há cruzes, alhos ou estacas que possam deter esses seres. O longa-metragem carrega no erotismo como poucos filmes de vampiros e tira proveito da beleza de suas atrizes: Catherine Deneuve e Susan Sarandon. No enredo, Bowie é John, um humano que se tornou vampiro no século 18 com a promessa feita por Miriam (Deneuve) de que seria jovem eternamente. O casal de vampiros permanece junto por duzentos anos até John perceber que está envelhecendo rapidamente. Apenas Miriam continua jovem e parte para conseguir uma nova companhia, a doutora Sarah (Sarandon). O final difere do livro que deu origem ao roteiro e foi imposto pelo estúdio, o que desagradou o diretor e o elenco. Algumas cenas podem parecer um pouco datadas, com “cara de anos 80”, mas ainda é um ótimo filme, o melhor dirigido pelo menos talentoso dos irmãos Scott. Bowie disse uma vez que para sua voz ficar rouca quando seu personagem tornava-se velho, toda noite ia numa ponte e cantava (gritando) todas as canções punk que conhecia.

Também lançado em 1983, Furyo – Em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence), traz o melhor trabalho de Bowie como ator. Dirigido por Nagisa Oshima, o enredo se desenvolve num campo japonês de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial, onde estão diversos oficiais das forças aliadas. O filme ilustra as diferenças culturais entre ocidente e oriente através dos relacionamentos entre prisioneiros e japoneses. Nos papéis principais, do lado ocidental temos Bowie e Tom Conti enquanto no lado oriental temos Takeshi Kitano (no seu primeiro filme apresentado fora do Japão) e o músico Ryuichi Sakamoto, também responsável pela trilha sonora.

Em 1985, Bowie participou de Um Romance Muito Perigoso (Into the Night), dirigido por John Landis. O filme é repleto de pequenas participações especiais.

No ano seguinte, Bowie esteve presente em dois filmes, nenhum foi bem de bilheteria. O maior fracasso foi a produção inglesa Absolut Beginners, dirigido por Julian Temple, um musical sobre a vida em Londres no final dos anos 50, visto de uma maneira estilizada, nada realista. Além de Bowie, que gravou a canção-título e mais algumas para a trilha sonora, o filme também tem participação da cantora Sade. O outro filme é Labirinto – A Magia do Tempo (Labyrinth) que foi mal recebido no seu lançamento, mas ganhou muitos fãs ao longo dos anos. Produzido por George Lucas e dirigido por Jim Henson, o criador dos Muppets, é um musical infanto-juvenil que mistura atores e marionetes numa história de fantasia. Bowie não só aparece cantando, mas também dançando! Ao todo são seis canções que refletem bem a fase pop de sua carreira.

Há uma pequena participação de Bowie no papel de Pôncio Pilatos em A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ), dirigido por Martin Scorsese em 1988.

Os anos 90 não foram tão interessantes para a sua carreira de ator, o maior destaque é a interpretação de Andy Warhol que fez em Basquiat, em 1996. Em Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire Walk With Me), um filme que desagradou até os fãs da cultuada série, fez uma pequena ponta como agente do FBI. Fora isso, os outros filmes dele nessa década são pouco conhecidos, como a comédia Romance Por Interesse (The Linguini Incident), que estrelou em 1991 ao lado Rosanna Arquette, o faroeste italiano Il Mio West, de 1998, o suspense Marcas da Violência (Everybody Loves Sunshine), de 1999, e O Segredo de Mr. Rice (Mr. Rice’s Secret), de 2000.

A volta de Bowie para um filme de destaque e a um bom papel ocorreu em 2006 na produção dirigida por Christopher Nolan, O Grande Truque (The Prestige). Nele, o cantor interpreta Nikola Tesla, o único personagem real da trama. Um pequeno papel, mas vital para a trama, mostrando que Bowie ainda é um ótimo ator.

fonte: omelete

terça-feira, 12 de agosto de 2008

História do Rock no Cinema – Parte 1: Anos 1950


O objetivo desta série de artigos é contar como a história do rock foi vista pelo cinema, o que inclui filmes que marcaram época, cinebiografias de bandas e músicos, projetos com músicos no seu elenco e longas-metragens com trilha sonora marcante. Enfim, muita coisa que aconteceu nesse casamento que já dura 50 anos. Estas matérias são retiradas do site http://www.omelete.com.br/ escritas por Rober Machado.

Imagem e música

Antes do cinema ter som, em muitas sessões de filmes mudos já havia a figura do pianista que tocava ao vivo durante a projeção, criando uma trilha sonora no momento. O som surgiu no filme O Cantor de Jazz (The jazz singer, de 1927) e veio acompanhado das primeiras notas musicais a preencherem as salas de projeção. Desde então, a música passou a ser parte essencial de um filme, somente descartada em algumas estéticas específicas, como o movimento Dogma 95. A relação do cinema com a música ficou ainda mais forte com os musicais de Hollywood entre os anos 30 e 50. A música era parte do enredo e ajudava a contar a história, com os atores cantando e dançando.

Nos anos 50 surge um ser estranho na sociedade. Não era adulto nem criança e vivia cheio de problemas e questionamentos: o adolescente. No filme Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955), o diretor Nicholas Ray retratava a juventude da época, que gostava de música mais barulhenta do que a que seus pais ouviam, tinham seus conflitos, suas dúvidas com relação ao mundo e precisavam de auto-afirmação - como podemos ver, em 50 anos nada mudou. O visual de James Dean acabou virando um padrão: calça jeans, camiseta branca, jaqueta de couro. Marlon Brando também exibia uma estética semelhante no filme O Selvagem (The wild one, 1953), também influenciando os jovens.

O nascimento do rock

Em 1954, Bill Haley and His Comets lançou a música Rock Around the Clock, o marco inicial do rock and roll. A canção foi incluída no filme Sementes da Violência (Blackboard jungle, 1955), contribuindo para o seu sucesso. O próprio Bill Haley, em companhia de seus cometas, estrelaram um filme chamado No Balanço das Horas (Rock Around the Clock, 1956) que, além de apresentar seus sucessos – como a canção título – também contava com a presença de outras bandas, como The Platters, e músicas do calibre de Only You e The Great Pretender. Filmado em janeiro de 1956, esse é considerado o primeiro filme de rock and roll, também sendo o primeiro a ter problemas. Nos cinemas onde o filme era exibido, segundo relatos da época, os jovens pulavam nas poltronas, berravam adoidado, rasgavam cortinas e ousavam levantar as saias das garotas. Tudo devido a esse “ritmo selvagem” criado por um gorducho de 29 anos e meio careca. No jornal Folha da Noite de 2/10/56 foi publicado o seguinte: “Mas é essa musica que, dançada pelos interpretes do filme, causa conflitos no seio de jovens mal formados pela educação modernizada, dando assunto aos estudiosos de problemas psicológicos”. Como se pode notar, rock and roll, juventude rebelde, problemas com a sociedade e cinema (e a atitude reacionária dos conservadores) estão juntos desde os primórdios.

Assim como esse filme com o Bill Haley, vários outros – também de baixo orçamento – foram rodados na época para aproveitar a popularidade do novo ritmo que, muitos achavam, não iria durar. Na sua maioria, eram filmes com um fiapo de história que servia somente para intercalar números musicais. Também era comum filmes com músicos tocando num determinado momento do enredo. Filmes assim ainda são feitos até hoje; a maioria acaba solenemente esquecida. Essa série de artigos vai se concentrar apenas nos mais relevantes, deixando os obscuros de lado.

O cinema olha para a época

Dos pioneiros do rock, Jerry Lee Lewis ganhou um filme em 1989 contando a sua história: A Fera do Rock (Great Balls of Fire!). Ele é interpretado por um alucinado Dennis Quaid, num dos melhores papéis de sua carreira. A história é contada do ponto vista de sua segunda esposa, que também era sua prima e tinha 14 anos na época, Myra Gale, interpretada por Winona Ryder. O próprio Jerry Lee reclamou de algumas cenas do filme, afinal não era a sua versão da história, mesmo assim ajudou Quaid a compor o personagem e participou do videoclipe do filme com os dois tocando juntos. O filme retrata sua personalidade intempestiva, suas performances literalmente incendiárias, seus problemas pessoais, mas acaba tendo um certo tom moralista no final. Jerry Lee Lewis, que se auto-intitulava The Killer, foi o primeiro roqueiro de vida atribulada, algo que virou um certo padrão no gênero. Sendo ele um dos grandes criadores do gênero, vale lembrar uma frase de John Lennon: não creio que jamais tenhamos feito alguma coisa melhor que Whole Lotta Shakin Going On.

Outro que teve sua vida retratada num filme foi Ritchie Valens em La Bamba, de 1987. Valens seria apenas uma nota de rodapé na história do rock se não fosse por esse filme. Teve uma carreira meteórica, encerrada oito meses depois numa tragédia aérea. Emplacou três hits sem nada de inovador. O grande sucesso que o filme teve trouxe a música-título para as paradas novamente. Numa representação um tanto esquemática da vida dele, o filme teve um grande apelo popular, impedindo que Valens caísse no completo esquecimento.

No mesmo avião em que Valens embarcou para a sua fatídica viagem estava Buddy Holly. Esse sim foi uma grande perda para o rock e merecia um novo filme (o artista foi tema de The Buddy Holly Story, de 1978, que ganhou Oscar de Melhor Canção). Criador do conceito do que depois iria se chamar power trio – banda somente com guitarra, baixo e bateria – Holly ia contra a corrente da época: não falava de rebeldia, carros e garotas, além de se apresentar de óculos. Suas canções até hoje ganham versões de músicos famosos. Também não deixou de ser homenageado pela própria música: "American Pie, de Don McLean, faz reverência a ele (“the day the music died”). A Madonna regravou a música recentemente, mas isso é outra história... Também vale ressaltar que a canção não tem nada a ver com o filme de mesmo título.

Vários outros artistas dessa época renderiam grandes filmes, Little Richard é o melhor exemplo. Eddie Cochran, outro que morreu jovem, também tem uma carreira interessante, sem falar em nomes como Carl Perkins e Gene Vincent. Chuck Berry chegou a aparecer em A Fera do Rock, só que numa participação que dizia muito pouco a respeito dele. Sua carreira permanece restrita na tela grande à revelação que Johnny B. Goode, seu maior sucesso, foi criada na verdade por Marty McFly durante o baile do filme De Volta Para o Futuro (Back to the future, 1984)...

fonte: omelete

História do Rock no Cinema – Parte 2: Elvis Presley

Os filmes do Rei do Rock!

Num sábado, em meados de 1953, Elvis Aaron Presley foi até o estúdio da Sun Records em Memphis e gravou um disco com uma música de cada lado para presentear a sua mãe, pagando três dólares e noventa e oito centavos. Depois disso, a história do rock nunca mais foi a mesma. Ele não era o melhor músico de sua época, mas era o cara certo no momento certo com a equipe certa e o empresário certo. Ele tinha a voz negra e o rosto branco que as gravadoras estavam procurando, sabia muito bem escolher o seu repertório e seu empresário, o “Coronel” Tom Parker, sabia exatamente qual rumo dar à sua carreira.

Elvis fez a sua primeira gravação profissional em julho de 1954. Pouco tempo depois assinou o contrato com o “Coronel”, que ficava com 20% a 50% dos lucros. Parker traçou um plano de divulgação que envolvia uma superexposição de Elvis na mídia. Na televisão, em 1956, apareceu pelo menos doze vezes em cadeia nacional, mas os censores proibiam que aparecesse da cintura para baixo devido aos seus requebrados pélvicos. Segundo um jornal de Nova York, Elvis “não cantava nada, compensava a imperfeição vocal com uma estranha e francamente sugestiva dança de acasalamento aborígene”.

O cinema também era um ponto central na estratégia de Parker. Em 1956, Elvis estrelou seu primeiro filme. O título seria The Reno Brothers, mas foi alterado para Love me tender (no Brasil, Ama-me com ternura) para promover a canção de mesmo nome. Depois deste, ocorreu uma enorme sucessão de filmes, de dois a três num mesmo ano. Entre 1956 e 1969, Elvis estrelou nada menos que 31 produções. Para Parker, o objetivo desses filmes era simples: vender discos, as trilhas sonoras. Elvis, ao contrário, ambicionava uma carreira séria em Hollywood, algo independente da sua carreira musical. Os produtores, porém, não precisavam de um ator, mas sim do Rei do Rock.

O problema desses filmes é a chamada “Fórmula Elvis”, isto é, a maioria dos filmes possuía um enredo muito parecido. Geralmente Elvis era um rapaz pobre, adorado pelas mulheres, envolvia-se em algumas brigas e cantava nas horas vagas. Mudava-se a profissão dos personagens e o cenário, mas o resto permanecia igual. Mesmo assim, alguns filmes merecem destaque por ficarem acima da média como O prisioneiro do rock (Jailhouse Rock, 1957), talvez o seu melhor filme; Balada sangrenta (King Creole, 1958), dirigido por Michael Curtiz, o mesmo de Casablanca (1942); Feitiço havaiano (Blue Hawaii, 1961) e Amor a toda velocidade (Viva Las Vegas, 1964 ). Este último é considerado por muitos críticos a melhor interpretação de sua carreira.

Sem fazer turnês e gravando discos e filmes fracos, Elvis queria voltar aos palcos. O retorno foi anunciado com um especial de TV chamado Elvis ‘68 Comeback Special, em que ele voltava às suas raízes roqueiras cantando alguns de seus maiores sucessos. Mostrando-o como um artista maduro, é um dos pontos altos de sua trajetória.

Após o fim de sua carreira como ator, Elvis ainda apareceu em documentários no cinema. O primeiro foi Elvis era assim (Thats the way it is, 1970), registrando a sua volta aos palcos. Em 1972 foi lançado Elvis triunfal (Elvis on tour), mostrando cenas de bastidores e canções de uma turnê. Em 1973, realiza seu projeto mais ambicioso, a transmissão de um show das ilhas havaianas via satélite, chamado Elvis: Aloha From Hawaii. O concerto foi transmitido para o mundo todo e sua audiência superou a da chegada do homem à Lua.

Elvis chegou a receber uma proposta para atuar no filme Nasce uma estrela (A star is born, 1976), ao lado de Barbra Streisand. Seria o tão sonhado papel sério para dar outro rumo à sua carreira cinematográfica, mas o Coronel Tom Parker vetou o projeto porque o nome de Elvis não seria o primeiro a aparecer nos créditos. Marlon Brando, Neil Diamond e Mick Jagger foram cogitados para esse papel, que acabou ficando com Kris Kristofferson.

A vida do Rei na tela

Em 1979, sua vida foi tema de um telefilme chamado Elvis não morreu (o original é apenas Elvis, mas o título brasileiro virou uma frase famosa por aqui), dirigido pelo mestre do terror John Carpenter e protagonizado por Kurt Russell. Essa não foi a primeira nem a última vez que Russell esteve ligado ao Rei. Seu primeiro papel no cinema foi num filme de Elvis, de 1963, Loiras, morenas e ruivas (It happened at World´s Fair). Ele era um garotinho que chutava a canela de Elvis assim que saía do carro. Essa mesma cena foi repetida em 3000 milhas para o inferno (3000 Miles to Graceland), de 2001: no começo do filme, aparece um garoto chutando a canela de Russell logo depois de sair de um carro vestido de Elvis para uma convenção de fãs em Las Vegas. Kurt Russell também fez a voz de Elvis em Forrest Gump (1994).

Outro documentário Elvis, o ídolo imortal (This is Elvis), de 1981, mistura cenas reais com outras recriadas em estúdio, abrangendo toda a sua vida. A produção teve consultoria do Coronel Tom Parker. Também foram realizados alguns filmes e minisséries para televisão, mas ainda falta um filme definitivo para o cinema.

O legado

Após a sua morte, em 1977, notou-se que Elvis Presley não era apenas um músico ou mito do rock, ele se tornara um ícone de cultura pop. É difícil alguém não saber quem foi Elvis independente de conhecer suas músicas ou não, faz parte do imaginário das pessoas. Por isso, virou referência em centenas de filmes, citando-o diretamente ou até parodiando-o. Como essa é uma lista muito grande, vamos nos ater a alguns títulos mais interessantes.

Em Mystery train, dirigido por Jim Jarmusch em 1989, um casal de japoneses vai para os Estados Unidos visitar Memphis, onde todos parecem viver da lembrança de Elvis. Os dois são obcecados pelos anos 50, ela adora Elvis e ele prefere Carl Perkins. A produção ainda traz a participação de alguns músicos como Screamin Jay Hawkins, Rufus Thomas, Tom Waits e Joe Strummer, guitarrista do The Clash. Mystery Train é título de uma canção de Elvis de 1955, lançada originalmente em 1953 pelo grupo Jr. Parker & The Blue Flames (grupo no qual Jimi Hendrix viria a tocar dez anos mais tarde). Essa série de artigos voltará a falar de Jim Jarmusch mais adiante.

Em Amor à queima roupa (True Romance, 1993), o personagem de Christian Slater recebe conselhos do espírito de Elvis, interpretado por Val Kilmer, mas seu rosto não é focalizado nenhuma vez. O roteiro é de Quentin Tarantino, que usou o dinheiro do trabalho para poder filmar Cães de Aluguel (1992).

Uma produção interessante de 1998 é Um estranho chamado Elvis (Finding Graceland), um road movie em que um jovem perturbado pela recente morte da esposa dá carona a um homem (Harvey Keitel) que diz ser o próprio Elvis, mesmo não sendo parecido com ele. Ele quer voltar para a sua casa, Graceland. No caminho, passa num show de imitadores de personalidades e encontra Marilyn Monroe, vivida por Bridget Fonda. Um dos melhores momentos é quando Elvis sobe num palco e canta "Suspicious Mind". Seja quem for esse Elvis, ele revela-se alguém capaz de compreender e apaziguar os problemas dos infelizes que andam pelas estradas.

Para finalizar, um filme no mínimo curioso, Bubba Ho-Tep, de 2002. Desta vez, o Rei é interpretado por outro ídolo do cinema: Bruce Campbell, o Ash da trilogia Evil Dead. A premissa do filme é genial. No passado, Elvis trocou de identidade com um de seus imitadores, que acabou morrendo e todos acreditaram que foi o verdadeiro. O Rei vive agora num asilo para velhinhos, onde faz eventuais apresentações. Seu melhor amigo, também morador do local, garante ser o presidente John Kennedy, pintado de negro pela CIA. Um dia descobrem uma maligna entidade egípcia que volta à vida e decide alimentar-se dos moradores da clínica. Os dois heróis geriátricos terão que impedir essa terrível ameaça. Infelizmente, o filme nunca foi lançado no Brasil. Confira o trailer aqui.

fonte: omelete

História do Rock no Cinema – Parte 3: The Beatles

Mesmo tocando desde a adolescência, a história profissional da banda dos quatro rapazes de Liverpool começa na Alemanha e, naquela época, eles eram cinco: John, Paul, George, Pete e Stu. Com um contrato para tocar num bar de uma área barra pesada de Hamburgo, se apresentando a noite inteira entre um strip-tease e outro, eles amadureceram como banda. Essa pré-história dos Beatles seria conhecida apenas pelos fãs mais ardorosos se não fosse pelo filme de 1994 chamado Os cinco rapazes de Liverpool (Backbeat), dirigido por Iain Softley.

O enredo é centrado na figura de Stuart Sutcliffe (Stephen Dorff), o melhor amigo de John Lennon (Ian Hart). O longa retrata muito bem essa fase da banda, principalmente a amizade entre os dois colegas e o namoro do primeiro com Astrid Kirchherr (Sheryl Lee). Quando conheceu a banda, Astrid namorava Klaus Voormann, que depois iria desenhar a capa do disco Revolver (1966) e tocaria baixo na Plastic Ono Band ao lado de John Lennon. Foi Astrid quem bateu as primeiras fotos promocionais dos Beatles e também criou o corte de cabelo “beatle”. Mesmo com algumas imprecisões históricas, o essencial da história da banda está lá: o pouco talento de Stu para tocar baixo e seu interesse pela pintura, a irreverência de John, o primeiro contato com anfetaminas, a gravação como banda de apoio de Tony Sheridan.

O filme deixa de fora um fato importante: foram John e Stu que criaram o nome do grupo, juntando as palavras “Beetles”, que eram as motoqueiras do filme O Selvagem (1953), com o “beat” da música. Stu morreu em 1962 de hemorragia cerebral, um dia antes dos Beatles chegarem para uma nova temporada em Hamburgo.

A trilha sonora é composta por músicas que os Beatles tocavam na época, em sua maioria covers de canções clássicas como Long Tall Sally, Rock & Roll Music e Carol interpretadas por uma banda especialmente montada para o projeto e que incluía gente como Dave Grohl (então no Nirvana), Thurston Moore (Sonic Youth), Dave Pirner (Soul Asylum), Mike Mills (R.E.M.) e Greg Dulli (Afghan Whigs).

Essa, porém, não foi a primeira vez que o ator Ian Hart interpretou John Lennon. Em 1991, ele havia feito o filme The Hours and the Times, uma ficção sobre uma viagem de John e o empresário Brian Epstein para a Espanha em 1963. Existe um outro filme pouco conhecido sobre essa fase inicial da banda chamado Birth of the Beatles, de 1979, dirigido por Richard Marquand, o mesmo de O Retorno de Jedi (1983). O que falta é um filme sobre a vida de Pete Best, que foi substituído por Ringo Starr às vésperas de gravarem o primeiro disco.

A beatlemania

Em 1964, a banda fez sua primeira excursão aos EUA e uma célebre aparição no programa do Ed Sullivan. Embora seja difícil separar os dois fatos, eles foram lançados cada um em um DVD, chamados The Four Complete Historic Ed Sullivan Shows Featuring The Beatles (DVD Duplo) e The Beatles - The First U.S. Visit. A visita à terra do Tio Sam também foi tema de um simpático filme dirigido por Robert Zemeckis, em 1978, chamado Febre de Juventude (I Wanna Hold Your Hand), em que um grupo de jovens tenta assistir à banda ao vivo no Ed Sullivan Show.

Ao atravessarem o Atlântico de volta à Inglaterra a banda estrelou o seu primeiro filme oficial. O título inicial seria Beatlemania, mas foi alterado para A Hard Days Night (no Brasil, Os Reis do Iê-Iê-Iê) após Ringo proferir essa frase por acaso, dando a idéia para John compor a música. Havia pressão para que a produção fosse rápida porque acreditava-se que a moda dos Beatles não duraria até o fim daquele ano. O filme mostra a “rotina típica” da banda: fugindo dos fãs, se apresentando, dando entrevistas... Tudo com muito bom humor. O diretor Richard Lester imprimiu um ritmo que virou padrão nos filmes de rock e influenciou até a linguagem da MTV, que só surgiria muito tempo depois.

Entre várias curiosidades da produção, vale destacar duas: entre os vários fãs da banda que estavam na platéia do programa de televisão havia um adolescente chamado Phil Collins (ele mesmo!); uma das figurantes das cenas do trem era uma modelo chamada Pattie Boyd, que depois iria se casar com George Harrison. E aqui cabe um parêntese. Em homenagem à esposa, o guitarrista compôs, por exemplo, Something, do álbum Abbey Road (1969). O melhor amigo dele, Eric Clapton, também se apaixonou por Pattie, que o inspirou a compor as canções Layla e Wonderful Tonight, entre outras. Após separar-se de Harrison, Pattie casou-se com Clapton.

O segundo filme dos Beatles é de 1965. O título seria Eight Arms to Hold You, mas foi alterado para Help!, também com direção de Richard Lester. Trata-se de uma ficção cômica, em que Ringo ganha um anel de um fã. O problema é que aparece uma seita que quer matar quem estiver usando o anel e acaba perseguindo a banda por vários países. Na época da produção, os Beatles estavam mais interessados em fumar maconha do que atuar. Mas, mesmo assim, o resultado é interessante.

Psicodelia na tela

Até o terceiro filme do quarteto, passaram-se apenas dois anos, mas muita coisa mudou na banda. Eles desistiram de fazer shows, mudaram o visual e a atitude, o empresário Brian Epstein morreu, passaram a compor músicas mais elaboradas, experimentaram LSD e lançaram um disco que é um verdadeiro marco da história da música, o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967).

Com total liberdade artística para esta terceira película, o grupo resolveu fazer a sua própria produção, escrever o roteiro e dirigir. Saíram andando num ônibus, com uma câmera na mão, sem nenhuma idéia na cabeça. O resultado foi Magical Mystery Tour, exibido no Natal de 1967 pela BBC. Totalmente massacrado pela crítica, o filme foi um fracasso de público. Um dos motivos dessa reação inicial é que o projeto foi filmado em cores, mas exibido em preto e branco. O filme é uma viagem psicodélica e por isso bastante colorido, assim, sem as cores, muitas cenas perderam o sentido. Mas mesmo assim, saíram de Magical Mystery Tour ótimos clipes, como “I Am the Walrus”, que alguns consideram uma obra de videoarte. Steven Spielberg disse que o filme foi estudado atentamente na sua faculdade. Ou seja, Magical Mystery Tour merece uma boa revisão crítica para avaliar se é apenas uma besteira ou uma algo relevante.

Pelo contrato feito por Brian Epstein, a banda ainda devia um filme. Quando estava vivo, o empresário havia pensado num longa de animação. Paul queria algo ao estilo Disney, mas os produtores apareceram com a idéia de uma animação psicodélica. Ninguém da banda estava muito interessado nesse filme, mas havia um contrato a cumprir. Liberaram algumas músicas já editadas e gravaram mais algumas sem muito entusiasmo. Nem mesmo se interessaram em dublar os personagens do desenho animado e apareceram no vídeo apenas no finalzinho. Mas quando viram o resultado pronto mudaram de opinião. Yellow Submarine, de 1968, ficara muito além da expectativa da banda. O longa é considerado um clássico da animação, admirado por críticos e público, e agrada a pessoas de qualquer idade.

O fim

Em janeiro de 1969, o quarteto resolveu fazer um documentário chamado Get Back, que mostraria os ensaios e gravações de um disco até o retorno aos palcos, num grande show. Mas nem tudo saiu como deveria. Já estavam num processo de dissociação, com alguns já não agüentando mais os outros – e a câmera captou tudo isso. John estava mais interessado em Yoko Ono e nas drogas. George sentia-se tolhido por Paul, que não lhe dava mais espaço nos discos. Paul muitas vezes parecia um ditador, o dono da banda. Ringo era o único que segurava as pontas.

Como tudo deu errado, não haveria o grande show de retorno do grupo, mas o filme precisava de um encerramento. Então, resolveram fazer uma pequena apresentação no telhado da gravadora durante o horário de almoço. O momento foi histórico e causou problemas no trânsito, até que a polícia chegou e mandou parar tudo. Foi a última vez que os Beatles tocaram juntos. Isso deve ter dado algum fôlego para eles, que gravaram ainda mais um disco, Abbey Road (1969), antes do inevitável fim. O filme foi lançado em 1970, após o fim dos Beatles, com o nome de Let It Be. Não fez muito sucesso. Não porque era ruim, mas porque mostrava a banda de um jeito que os fãs não queriam ver, num momento em que não havia mais alegria de tocarem juntos. Talvez por isso o documentário não tenha sido lançado oficialmente em DVD ainda.

fonte: omelete

História do Rock no Cinema – Parte 4: Carreiras solo dos Beatles

I just believe in Yoko and me

A carreira solo de John Lennon no cinema começou quando ele ainda estava na banda. Ele foi um dos protagonistas de How I won the war, dirigido por Richard Lester em 1967, uma comédia sobre a Segunda Guerra. Foi nessa época que ele pensou pela primeira vez em sair da banda. Entre 1968 e 1971, produziu vários curtas em parceira com Yoko Ono – como era de se esperar, todos podem ser classificados como experimentais. Um deles que mostra apenas o sorriso de John, Smile; outro com uma mosca sobre um corpo nu de mulher, Fly; um em câmera lenta mostrando uma ereção de John, Self portrait; e outros também de caráter experimental.

Fora os curtas, há produções como o famoso Honeymoon, de 1969, mostrando várias entrevistas do casal numa cama de hotel promovendo a paz. Para a televisão austríaca, escreveram e dirigiram Rape, filme sem diálogos sobre o estupro de uma garota. Imagine, de 1973, um filme surrealista, meio documentário, meio ficção, mostra um dia da vida de John e Yoko, além trazer a famosa canção de mesmo nome. George Harrison também aparece no filme. Imagine também é o título de um documentário de bastante sucesso de 1988 sobre a vida de Lennon, com imagens desde os Beatles até algumas gravações caseiras.

Live and let die

Enquanto estava nos Beatles, Paul McCartney contribuiu para a trilha sonora do filme The family way, de 1966. Após o fim da banda, Paul teve uma carreira musical de grande sucesso, mas pouco ligada ao cinema em comparação a seus ex-parceiros. A melhor música de sua carreira solo, entretanto, foi feita de encomenda para um filme de James Bond, Viva e deixe morrer (Live and let die), de 1973. Foi a primeira vez que uma canção de rock foi utilizada como tema de 007. Em 1984, Paul escreveu e estrelou um filme chamado Mande lembranças para Broad Street (Give my regards to Broad Street), que contava também com a presença de Ringo Starr. Na enredo, Paul tinha a fita mestre do seu último disco roubada e, enquanto os personagens procuravam pela tal fita, era feita uma série de rearranjos para suas músicas – tanto da sua carreira solo quanto dos tempos dos Beatles. Foi um tremendo fiasco.

Fora isso, existem vídeos de suas turnês e shows, merecendo destaque Get back, dirigido por Richard Lester, com a turnê de 89/90 e Live at Cavern Club, de 1999. Neste último, Paul volta ao lendário clube da origem dos Beatles para tocar músicas que ouvia quando era jovem e algumas novas no mesmo estilo, acompanhado por uma banda que incluía David Gilmour (Pink Floyd) e Ian Paice (Deep Purple).

Em 2002, Paul foi indicado ao Oscar pela canção tema de Vanilla Sky. A trilha sonora desse filme será comentada num artigo bem mais adiante nessa série.

My sweet lord

Em 1968, George Harrison foi convidado para fazer a trilha sonora do filme Wonderwall, sobre um velho professor que espiona a vizinha e acaba se envolvendo na sua vida. A trilha, que conta com a participação de Eric Clapton e Ringo Starr, é o primeiro disco solo de um Beatle. O título serviu de inspiração para a mais famosa música da banda dos irmãos Gallagher. Raga, um documentário de 1971 sobre o músico indiano Ravi Shankar também conta com a presença de George.

Em 1971, organizou um show em benefício das vítimas da guerra em Bangladesh e teve a participação de Bob Dylan, Eric Clapton, Ringo Starr e Ravi Shankar, além do próprio George. Foi o primeiro concerto beneficente desse estilo. Um documentário foi lançado no ano seguinte, The Concert for Bangladesh e acaba de ser lançado em DVD por aqui.

George também foi produtor de cinema. Em 1979, fundou a Handmade Films e produziu diversos filmes. O primeiro foi A vida de Brian (Life of Brian), do Monty Python, inclusive George faz uma pequena ponta no filme. Outras produções que receberam elogios da crítica: Bandidos do tempo (Time bandits, 1981, de Terry Gillian, também do Monty Python), Mona Lisa (1986), Five corners (1987), Como fazer carreira em publicidade (How to get ahead in advertising, 1989).

Num dos filmes que produziu, Surpresa de Shanghai (Shangai Surprise), de 1986, George também compôs a trilha sonora e aparece cantando numa pequena cena. O filme, estrelado por Sean Penn e Madonna, é muito ruim. A produção foi indicada em diversas categorias do Framboesa de Ouro e Madonna ganhou o “prêmio” de pior atriz.

No, no song

A carreira de Ringo Starr como ator é bastante prolífica. Fora os filmes dos Beatles, seu primeiro foi Candy, em 1968, que tinha no elenco Marlon Brando, Richard Burton e Walter Matthau, entre outros. Ringo faz o papel de um jardineiro mexicano. Na trilha sonora há canções do Steppenwolf e The Byrds.

A participação de Ringo em papéis inusitados também é uma constante. Interpretou o Papa em Lisztomania, de 1975 (esse filme será comentado em outro artigo), Merlin em Son of Dracula, de 1974 (que também produziu), e faz o papel de Frank Zappa em 200 Motels, de 1971 (detalhe: o filme foi escrito e dirigido por Frank Zappa - também falaremos dele mais adiante).

Também fez alguns papéis sérios como em Thatll be the day, de 1973, sobre a classe operária britânica na década de 50. O filme teve uma continuação no ano seguinte e contou no elenco com Keith Moon, o louco baterista do The Who.

Um dos destaques da carreira de Ringo no cinema é a comédia O homem das cavernas (Caveman), de 1981. É a história de um homem das cavernas que ama a filha do chefe de uma tribo inimiga e sai pelo deserto atrás de seu amor, enfrentando várias aventuras, incluindo brigas com dinossauros (!). Seu melhor amigo é interpretado por Dennis Quaid.

All you need is cash

Depois do fim dos Beatles, as músicas da banda estiveram em muitos filmes, mas vamos destacar somente alguns. Para começar, uma paródia de 1978 da carreira da banda chamada The Rutles: all you need is cash, criada por Eric Idle, outro integrante do Monty Python. Contou com participações especiais de George Harrison, Mick Jagger, John Belushi, Dan Aykroyd e Bill Murray.

Também em 1978 foi realizada uma bomba com o título Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, um estrondoso fracasso de público e crítica, considerado um dos piores filmes já feitos. Teve a produção musical de George Martin, o “quinto beatle”, mas nem isso salvou o filme. Tem uma história vagamente inspirada nas canções dos Beatles, com uma certa atenção ao álbum homônimo da banda. Nos papéis principais estão Peter Frampton e os integrantes dos Bee Gees (?!). Também participaram Aerosmith, Alice Cooper e Earth, Wind & Fire. No final, no fundo de uma cena, aparecem Paul e George.

Das trilhas sonoras com canções dos Beatles, uma das mais interessantes é a Uma lição de amor (I Am Sam), de 2001. Sean Penn queria que a trilha tivesse somente músicas da banda, mas não conseguiu os direitos, então pediu para grupos atuais gravarem covers das canções. Entre outros, participaram Black Crowes, Eddie Vedder, Nick Cave, Aimee Mann, The Vines e Grandaddy. Do filme, fora a trilha, só se salva a interpretação de Sean Penn.

Mas não dá para terminar de falar dos Beatles, sem citar um clássico dos anos 80: Curtindo a vida adoidado (Ferris Buellers Day Off), de 1986, que tem como um dos pontos altos um desfile ao som de “Twist and Shout”.

fonte: omelete